Dorso Selado  
     
  Conheça os Defeitos que Causam o Dorso Selado
Por Paulo Santos Cruz

Neste artigo, Dr Paulo Santos Cruz mostra que o dorso selado é resultado de uma série de outros defeitos, como tórax e esterno curtos, flanco longo e coluna fraca.

A gíria cinófila denomina “selado” o dorso que cedeu, ou afundou, afastando-se da horizontalidade, como acontece nos cavalos de montaria, já velhos, e sem mais tonos muscular suficiente.
A característica marcante desse defeito é o dorso côncavo, da cernelha à garupa, como uma rede.
O Fila tem dorso em duas linhas retas convergentes. A primeira desenha a cernelha, prolongando-se até, mais ou menos, a oitava vértebra: a segunda ascende, desse ponto, em aclive até a garupa, ou melhor, até o ílio ou ponta anterior do ilíaco. O lugar onde essas duas linhas se encontram, vale dizer, em torno da oitava vértebra, recebe o nome, também na gíria, de “dobradiça”. Desse ponto para trás, seu corpo bamboleia diferentemente da parte dianteira.



Alguns filas apresentam a “dobradiça” tão rebaixada dando a impressão, para os menos versados, de ser o dorso selado. A diferença é grande. O ponto de convergência ou “dobradiça” é que é baixo, mas as duas retas estão presentes. Não há curva ou sela.
Procura-se evitar o defeito “dorso selado” através de acasalamentos que arredem suas principais causas: tórax curto, esterno curto, flanco longo, coluna fraca.
Num cão bem construído, o tronco, entre os membros dianteiros e traseiros, deve ser ocupado, em maior porção, pelo tórax, e em menor, pelo flanco e abdômen. Isto porque a construção do tórax distribui melhor pesos e pressões. A coluna vertebral, no trecho torácico, conta com o apoio das costelas e estas, por sua vez, descarrregam o peso sobre o esterno (osso do peito). Assim, a carga dos órgãos contidos pelo tórax é distribuída entre 11 pares de costelas, ou 22 pilares que, embora não perpendiculares, realizam bem a função de sustentáculos. Os dois últimos pares de costelas são as qualificadas como “falsas”, não descendo até o esterno.
Já no trecho do flanco, o peso dos órgãos abdominais, além de maior que o dos torácicos, não conta com o auxílio das costelas, nem com o amparo do esterno. Todo ele é suportado única e exclusivamente pela coluna vertebral. O abdômen é virtualmente pendurado na coluna.
Se este trecho for comprido, aumenta a possibilidade de a coluna vertebral selar. Do ponto de vista arquitetônico, a construção de um cão equivale à de um viaduto, tendo seu leito carroçável (dorso), apoiado em dois pares de pilares (pernas). Quanto mais afastados estiverem estes pilares, maior será o trecho sem esteio inferior, portanto suscetível de selar. Geralmente este defeito está presente nos tipos baixos e longos, pernas curtas e corpo comprido, encontradiços entre os híbridos de Fila com Mastim Napolitano.



Caso não raro, até mesmo comum nos mestiços de Fila com Dogue Alemão, é o do esterno curto, acabando muito antes das últimas costelas. Como todas estas tem de se articular com as respectivas esternébras (ossos ou vértebras do esterno), estas pequenas, curtas, compõem um esterno limitado. Conseqüência: as costelas inclinam-se, chegando quase à posição diagonal, ao saírem das vértebras e até se articularem nas esternébras situadas muito à frente. A carência de um bom apoio inferior às costelas enfraquece o conjunto, propiciando abaulamento dorsal.
Em geral este defeito propicia outro: tórax de arenque, no qual a linha inferior do tronco, logo após o cotovelo, toma direção marcadamente ascendente.
A coluna vertebral fraca é mais uma possível causa do dorso selado. A coluna é formada por vértebras, desde a nuca até a ponta da cauda. Se as vértebras forem fracas, de ligamentos flácidos, todo o conjunto será fraco. Nos casos mais acentuados, o dorso sela ainda na juventude, ou então logo à chegada da maturidade, com a maior corpulência do animal – vale dizer peso maior forçando o dorso.
Identificam-se os casos de vértebras fracas pelo exame das primeiras vértebras externas ou caudais. A partir da ponta da cauda, as vértebras vão gradativamente engrossando. Assim podemos deduzir que a primeira interna ou coccigeana deve ser mais grossa e forte do que a primeira externa sua precedente. Logo, examinando esta, podemos concluir da força das seguintes. Portanto: raiz da cauda grossa identifica coluna vertebral também grossa, poderosa, resistindo bem às pressões e pesos, dificilmente selando. A cauda fornece outras informações sobre o dorso, porque seus músculos movimentadores são prolongamentos dos que musculam a coluna. Portanto, caudas anquilosadas, lateralmente onduladas, enroscadas, denunciam músculos fracos. Se são fracas as terminações de um músculo, débil deve ser, também, seu corpo principal.
Fácil é detectar o grande número de cães portadores de caudas defeituosas, acompanhadas de dorso também prejudicado, ou de ventre caído. Pois a musculatura da cauda também tem prolongamento nos músculos abdominais.
O dorso selado não representa, apenas, algo desagradável aos olhos; em verdade, à coluna incumbe empurrar a parte dianteira do cão durante a locomoção, cuja força é gerada no trem traseiro. Este “empurra” a coluna que, por sua vez, “empurra” a frente do cão. Logo, um dorso fraco, mole, prejudica o trote e o galope.
Em algumas raças, principalmente nas trotadoras, como o Pastor Alemão, exige-se, mesmo a passo, a manutenção de uma boa estabilidade da coluna, que não deve oscilar vertical ou lateralmente em demasia. No trote, então, é condenada qualquer movimentação das vértebras. Evidentemente, nessas raças, um dorso selado é falta muito mais grave do que no Fila. Para este, só no galope se requer estabilidade dorsal. A passo, e dado seu andar característico, de “camelo”, o dorso balança lateralmente, da dobradiça para trás, de um para outro lado, em oposição à parte da frente; isto é, quando ombro e tórax oscilam à esquerda, a parte posterior ginga à direita. A ginga é muito maior, ou pelo menos muito mais observável estando a cauda erguida, pois esta balança de um lado para o outro. Todavia, a galope, o dorso do Fila enrijece, firma, e todo o impulso do trem traseiro é transmitido à parte dianteira, alcançando o cão velocidades insuspeitadas em cão de tal tamanho.
Então, o passo do Fila e seu trote não serão tão eficientes como os demais cães? Evidentemente, o fato de não ser, a passo e a trote, seu dorso estático, não significa redução de eficiência. Fosse rijo como um trotador, e ele não poderia mudar de direção com a mesma rapidez como faz graças à sua dobradiça. E essa facilidade de mudar de direção é essencial para escapar das garras de uma onça, ou do ajoelhamento de um boi, por ele seguro nas ventas.
Em suma, a ginga é tão importante no Fila como a estabilidade no Pastor. E é mais brasileira.

Artigo extraído do Boletim “O Fila” nº 32 – jan/fev de 1982